Há uma leitura confortável, porém insuficiente, sobre a eleição presidencial de 2026: de um lado estaria Lula, apresentado como representante do “centro democrático”; do outro, Flávio Bolsonaro e uma suposta “extrema direita” movida por ressentimento, desinformação ou culto a uma família.
Essa explicação talvez funcione para quem já concordava com ela antes mesmo de as urnas serem abertas. Também é uma boa narrativa aos que conhecem a verdade, mas se recusam a verbalizar. Para compreender o que efetivamente aconteceu no país, é preciso olhar para trás.
O primeiro turno terminou com Flávio Bolsonaro à frente, com 47,03% dos votos válidos e 56,1 milhões de votos, contra 45,16% e 53,9 milhões de Lula. Paralelamente, a direita ampliou de forma extraordinária sua presença no Congresso. O PL elegeu 121 deputados e terá 28 senadores, tornando-se a maior bancada partidária nas duas Casas. Uma classificação ideológica publicada após a eleição calculou a nova Câmara com 303 deputados de direita, ou 59,1% das cadeiras.
Não é um fenômeno marginal.
Não é uma meia dúzia de radicais.
Não é um acidente eleitoral.
O que aconteceu no domingo foi a manifestação política de uma parcela enorme do país que deseja interromper uma direção institucional que considera consolidada há mais de duas décadas.
É por isso que reduzir essa eleição à pergunta “como alguém pode preferir Flávio a Lula?” significa errar o objeto da discussão.
Não é essencialmente sobre Flávio Bolsonaro. É sobre a direção doEstado brasileiro.
O início da cooptação do Estado:
Para compreender a ruptura de parte do eleitorado com o PT, é preciso voltar ao primeiro governo Lula.
O Mensalão não foi uma invenção posterior do bolsonarismo. Bolsonaro ainda estava muito longe de ocupar o centro da política nacional quando o Supremo Tribunal Federal julgou a Ação Penal 470.
O registro do próprio STF é inequívoco: o julgamento tratou de pagamentos a parlamentares para a composição da base aliada do governo na Câmara dos Deputados. O então relator Joaquim Barbosa afirmou que milhões de reais haviam sido distribuídos a parlamentares integrantes da base governista.
Mais revelador é o voto da ministra Rosa Weber. Segundo o informativo oficial da Corte, ela censurou o caminho escolhido pelo PT ao buscar maioria no Parlamento para viabilizar seus projetos e preservar sua orientação política por meio da compra de votos.
A gravidade política do episódio costuma ser diminuída quando ele é colocado simplesmente na gaveta genérica da “corrupção”.
Não era apenas dinheiro público desviado para enriquecimento pessoal.
Estava em questão o próprio mecanismo de formação de maioria de uma democracia parlamentar.
Uma eleição não entrega apenas a Presidência da República. Ela elege também Câmara e Senado. Se um presidente vence sem maioria suficiente no Congresso para executar todo o seu programa, isso também faz parte do resultado eleitoral.
O caminho democrático é negociar.
Convencer.
Ceder.
Formar coalizões.
Ou voltar às urnas e eleger mais deputados.
Comprar apoio político com vantagens indevidas não é negociação democrática.
Quando dinheiro ilícito passa a interferir na manifestação do Parlamento, não se corrompe apenas uma pessoa. Corrompe-se o mecanismo que deveria transformar o voto popular em decisão política.
É aí que começa a tese da cooptação.
A continuidade do processo por outra via
O Petrolão não desmontou essa tese. Ampliou-a
Anos depois veio a Lava Jato e a dimensão do problema se tornou muito maior.
A Petrobras apareceu no centro de uma engrenagem envolvendo dirigentes da estatal, grandes empreiteiras, operadores financeiros, agentes públicos e políticos de diversos partidos.
Costuma-se responder a isso observando que não havia apenas petistas no esquema.
É verdade.
Mas isso não necessariamente enfraquece o argumento da captura sistêmica. Sob outra perspectiva, é exatamente o contrário.
Se o Mensalão mostrou a compra de apoio dentro do Congresso, o Petrolão revelou uma rede política e econômica que já atravessava diferentes legendas e centros de poder.
A própria investigação alcançou agentes vinculados a múltiplos partidos. Não se tratava de uma sala onde só havia membros de uma legenda; tratava-se de uma forma de funcionamento que havia penetrado profundamente o sistema político.
A leitura crítica, portanto, não é “todos os outros eram inocentes e apenas o PT era corrupto”. Isso seria historicamente simplista.
A questão é outra:
Como o sistema político brasileiro chegou ao ponto em que governo, partidos, empreiteiras, estatais e operadores podiam funcionar dentro de uma engrenagem de tamanha dimensão?
Para quem enxerga uma sequência entre Mensalão e Petrolão, a multiplicidade de partidos deixa de ser absolvição e passa a ser indício da extensão da contaminação.
O projeto político do PT nunca foi simplesmente centrista
Há ainda uma segunda confusão recorrente: a tentativa de redefinir Lula como representante político do “centro”.
Lula é pragmático. O PT construiu alianças com partidos centristas e conservadores. Seus governos adotaram, em diferentes momentos, políticas econômicas moderadas.
Nada disso transforma o PT em partido de centro.
O próprio estatuto da legenda afirma que ela pretende promover transformações “políticas, sociais, institucionais, econômicas, jurídicas e culturais” com o objetivo de construir o “socialismo democrático”.
Não há necessidade de inventar uma conspiração para reconhecer isso.
Está escrito pelo próprio partido.
Isso tampouco significa que o PT defenda uma revolução armada ou a extinção imediata da democracia representativa (apenas por já ter tentado e não ter funcionado). A estratégia é outra: transformação estrutural pela via institucional.
É uma esquerda reformista.
Pode-se chamar esse processo de reforma, transformação gradual ou, em sentido político mais amplo, de uma revolução por dentro do sistema: chega-se ao governo, ampliam-se alianças, ocupam-se legitimamente posições abertas ao Executivo, mudam-se políticas, leis, valores administrativos e, ao longo do tempo, altera-se a própria orientação do Estado.
É precisamente esse projeto que a direita rejeita.
E rejeitá-lo não transforma automaticamente ninguém em extremista.
Se a esquerda democrática pode desejar uma transformação profunda do Estado em sua direção ideológica, uma direita democrática também pode desejar uma transformação profunda na direção contrária.
Do contrário, cria-se uma curiosa regra política:
a esquerda tem o direito de transformar; à direita cabe apenas conservar as transformações realizadas pela esquerda.
Isso não é pluralismo.
O ponto decisivo: a cooptação chegou às instituições
É aqui que a tese se torna mais controversa — e também mais importante.
A cooptação do Estado não precisa ocorrer por meio de uma ordem escrita dizendo a determinado ministro como votar.
Ela pode ser institucional, gradual e cumulativa.
Lula nomeou dez ministros do Supremo Tribunal Federal ao longo de seus mandatos. Dilma Rousseff nomeou outros cinco. Foram 15 nomeações feitas por presidentes do PT. Bolsonaro, em quatro anos, fez duas.
A indicação presidencial ao STF é perfeitamente constitucional.
Esse não é o argumento.
O argumento é que a permanência prolongada de um mesmo campo político no Executivo produz consequências permanentes sobre a composição das instituições.
Nenhuma nomeação isolada demonstra submissão partidária. Ministros indicados por Lula e Dilma já votaram repetidamente contra interesses do próprio PT.
Mas a política não pode ser analisada apenas por cada fotografia isolada. Existe também o filme.
E, nesse filme, um mesmo grupo político teve durante muitos anos oportunidade extraordinária de participar da formação das estruturas que continuariam exercendo poder mesmo depois de encerrados seus mandatos.
A isso se acrescentou uma mudança ainda mais importante: o próprio Supremo passou a ocupar espaço crescente na arena política.
Quando o árbitro passa a jogar
O Inquérito 4.781, conhecido como Inquérito das Fake News, tornou-se um símbolo desse processo.
Foi instaurado pelo próprio Supremo em 2019. Em 2020, a Corte julgou sua abertura inconstitucional por dez votos a um. O tribunal justificou a medida pela existência de ameaças, notícias fraudulentas e ataques dirigidos à Corte e aos ministros.
Mas a discussão nunca foi apenas se ameaças contra ministros deveriam ser investigadas.
A controvérsia estava no desenho institucional: uma Corte que era vítima dos ataques, instaurava o inquérito, determinava medidas e posteriormente julgava controvérsias relacionadas à própria investigação.
O fato de o próprio STF ter declarado esse arranjo constitucional não elimina a possibilidade de criticá-lo politicamente ou do ponto de vista de desenho institucional.
Ocorreram, perseguições políticas, prisão sem o processo legal, torturas psicológicas e chantagens para delações, cancelamento de reputações, obstrução da liberdade de expressão….
A excepcionalidade tornou-se a regra, que ficou ainda mais evidente anos depois. Mais uma vez, não é preciso acreditar numa grande conspiração para perceber que o Brasil passou a operar com uma judicialização da política em intensidade extraordinária.
E é justamente nesse ambiente que Jair Bolsonaro presidiu o Brasil.
2018 não iniciou a ruptura; interrompeu um processo
A narrativa predominante em parte da imprensa e da esquerda estabelece 2018 como o início da crise: Bolsonaro teria chegado ao poder e começado a atacar instituições até culminar nos acontecimentos posteriores à eleição de 2022.
Há outra leitura possível.
Nela, Bolsonaro não inaugura o conflito. Ele interrompe uma trajetória.
O eleitorado de 2018 escolheu explicitamente um governo de direita depois de um longo período de domínio petista da Presidência, interrompido pelo impeachment, graças as manifestações massivas do povo.
Não se elegeu apenas uma pessoa.
Elegeu um programa, mas o sistema se recusou a aceitar.
Segurança pública mais dura, liberalização econômica, valores conservadores, revisão de políticas anteriores, ampliação de acesso a armas e redução do peso de determinadas estruturas estatais estavam entre os elementos centrais daquele campo político.
A partir de 2019, e especialmente de 2020 em diante, o conflito entre Executivo e Judiciário se intensificou.
Medidas do governo foram barradas.
Decretos foram suspensos.
O Inquérito das Fake News avançou.
A pandemia ampliou dramaticamente a interferência judicial nas disputas federativas e políticas.
Para o Supremo, tratava-se do exercício legítimo de sua função constitucional.
Para uma parcela crescente da direita, formou-se a percepção oposta: um presidente havia sido eleito para executar uma inflexão à direita, mas as instituições permanentes limitavam sistematicamente a capacidade de essa inflexão ocorrer.
É nesse ponto que nasce a sensação de que o Estado já tinha lado e já estava cooptado.
A volta de Lula comprovou definitivamente essa percepção
Em 2021, o STF anulou as condenações de Lula provenientes da 13ª Vara Federal de Curitiba ao concluir que aquele juízo era incompetente para analisar os casos. O Plenário confirmou a decisão por oito votos a três. A Corte também declarou Sergio Moro suspeito na ação do triplex.
Esses são os fundamentos jurídicos oficiais ….
Mas uma análise política não termina na reprodução da ementa judicial.
A consequência concreta foi que Lula, anteriormente condenado e impedido de disputar eleições, recuperou sua condição política e voltou à disputa presidencial.
Para uma parcela da direita, isso representou algo muito maior do que uma correção processual.
O mesmo sistema judicial que acumulava confrontos com o governo Bolsonaro tomou decisões que permitiram o retorno do principal adversário político daquele campo, antes condenado, e veja bem jamais foi inocentado.
É aí que a palavra cooptação, na perspectiva desta análise, deixa de significar apenas “quem indicou quem”.
Passa a descrever uma percepção de conjunto: instituições permanentes do Estado já não funcionariam apenas como árbitros externos à disputa política, mas teriam se transformado em atores com capacidade de alterar seu curso.
Sem a virada de 2018, o Brasil estaria muito mais próximo da Venezuela
O argumento não é que o Brasil de 2018 fosse a Venezuela de Nicolás Maduro.
Não era.
A comparação está no processo de concentração institucional.
Na Venezuela, a deterioração democrática ocorreu progressivamente: redução da independência institucional, enfraquecimento dos freios ao Executivo, controle crescente sobre estruturas estatais e redução do espaço efetivo da oposição.
A tese aqui defendida é que a eleição de uma força política claramente à direita em 2018 interrompeu um processo de hegemonização que, sem alternância, teria continuado avançando.
Não era indispensável que essa pessoa fosse Jair Bolsonaro.
O elemento decisivo era a entrada de uma força política capaz de quebrar uma longa sequência de deslocamento do Estado numa única direção.
Sem essa ruptura eleitoral, a partir de 2020 o grau de concentração institucional poderia ter sido muito maior.
É nesse sentido, e não na afirmação simplista de que Brasil e Venezuela seriam idênticos, que a comparação é relevante.
2022: Golpe ou reação de quem já se considerava golpeado?
Essa talvez seja a parte mais difícil do debate brasileiro porque há duas narrativas incompatíveis.
A primeira tornou-se a narrativa jurídico - política oficial.
O STF condenou Jair Bolsonaro a 27 anos e três meses de prisão por crimes relacionados à tentativa de golpe de Estado e o classificou como líder da organização criminosa julgada na Ação Penal 2.668. A condenação tornou-se definitiva.
Esse seria o estado jurídico do caso.
A interpretação defendida é outra: a condenação de Bolsonaro representa o ápice de uma perseguição política iniciada durante seu próprio governo.
Isso não é a decisão do STF. É a tese que se contrapõe a ela.
E existe uma pergunta que precisa ser feita para compreender os acontecimentos de 2022, mesmo por quem discorde completamente dessa conclusão:
como os próprios atores daquele campo político enxergavam as instituições naquele momento?
Uma parcela da direita não acreditava estar diante de instituições neutras que haviam acabado de sofrer uma tentativa inesperada de ruptura.
Acreditava que a ruptura já havia acontecido.
Acreditava que o Judiciário havia extrapolado seus limites.
Acreditava que censura e perseguição política já estavam ocorrendo.
Acreditava que o resultado produzido pelas urnas em 2018 havia sido progressivamente neutralizado por instituições não eleitas.
Acreditava que o principal adversário político havia retornado à eleição mediante decisões de uma Corte que simultaneamente protagonizava o conflito com a direita.
Foi nesse ambiente que algumas poucas pessoas passaram a defender medidas que chamavam de intervenção, resistência ou contragolpe.
Reconstruir esse raciocínio não equivale a afirmar que qualquer ruptura da Constituição se tornaria automaticamente legal porque seus autores se julgavam vítimas.
Mas é indispensável para compreender o fenômeno.
Quem fala em “contragolpe” parte precisamente da premissa de que o primeiro golpe já teria ocorrido por dentro das instituições.
É por isso que a história política de 2022 não pode começar em 8 de Janeiro.
Ela precisa começar anos antes.
2026 mudou a equação: a reação agora veio das urnas
E então veio 2026.
O resultado tem uma importância que ultrapassa a disputa presidencial. Mas uma vez exponho os números:
Flávio Bolsonaro recebeu 56.104.268 votos, 47,03% dos votos válidos, terminando o primeiro turno à frente de Lula.
Na Câmara, o PL conquistou 121 das 513 cadeiras, sua maior bancada.
No Senado, terá 28 dos 81 senadores — a maior bancada de um partido no início de uma legislatura desde a Constituição de 1988, segundo a Agência Senado.
E o fenômeno é maior do que o PL. A nova Câmara foi classificada como 59,1% de direita, com 303 deputados.
A própria Reuters descreveu o resultado como uma onda de direita no Congresso brasileiro.
Essa eleição resolve um problema que atravessou toda a experiência bolsonarista anterior.
Em 2019, a direita havia conquistado o Executivo sem possuir força parlamentar equivalente.
Agora, conquistou uma correlação de forças muito maior dentro do próprio Poder Legislativo.
E isso altera tudo.
Não é preciso fabricar maioria.
Não é preciso comprar voto de parlamentar.
Não é preciso recorrer a mecanismos externos à democracia.
A maioria política pode ser construída exatamente onde deveria ser construída: na urna.
A resposta ao Golpe institucional Lulo-petista não é um Mensalão de direita.
É importante estabelecer bem esse limite.
Se o diagnóstico é que o PT corrompeu o processo político ao comprar apoio parlamentar, a resposta democrática não pode ser reproduzir o mesmo método com sinal ideológico invertido.
Uma direita que compre deputados estaria repetindo o problema que afirma combater.
Uma direita que ilegalmente capture tribunais estaria simplesmente trocando uma hegemonia por outra.
A diferença essencial de 2026 é outra:
a força política foi conquistada pelo voto.
Se uma maioria de direita aprovar reformas dentro da Constituição, rever políticas públicas, ampliar mecanismos de fiscalização do Judiciário, alterar legislação penal, reduzir estruturas administrativas ou mudar prioridades econômicas, isso não será golpe simplesmente porque essas políticas desagradam à esquerda.
Será política.
Exatamente como políticas de esquerda aprovadas por uma (suposta) maioria legítima também são política.
Direita não é centro — mas tampouco é sinônimo de extrema-direita
Outro recado das urnas precisa ser assimilado.
Existe direita.
Direita não é necessariamente centro.
E direita não é automaticamente extrema-direita.
A distorção do vocabulário político produziu uma situação peculiar: Lula e um partido cujo estatuto prevê a construção do socialismo democrático passam a ser descritos simplesmente como “centro”, enquanto candidatos que defendem capitalismo, conservadorismo, segurança pública mais dura, redução do Estado e limitação do ativismo judicial são classificados de modo quase automático como “extrema direita”.
A régua deixa de medir quando seu ponto zero se desloca.
O critério precisa ser simétrico.
Se é possível existir uma esquerda democrática profundamente transformadora, é igualmente possível existir uma direita democrática profundamente transformadora.
O radicalismo democrático não é medido pela distância em relação ao centro.
É medido pelos meios.
Defender mudanças profundas pelas urnas, pelo Parlamento e dentro da Constituição é uma coisa.
Eliminar eleições, perseguir adversários ou impedir a alternância é outra.
A contra-revolução possível é institucional
É nesse sentido que a expressão contra-revolução pode descrever o momento político brasileiro.
Não como fechamento do Congresso.
Não como proibição de partidos.
Não como violência contra quem pensa à esquerda.
Mas como uma reversão política ampla realizada pelos mesmos mecanismos constitucionais que permitiram o avanço anterior da esquerda.
Se o PT defende transformações políticas, jurídicas, culturais e econômicas em direção ao socialismo democrático, a direita tem legitimidade para defender transformações igualmente amplas no sentido contrário.
Pode fazê-lo elegendo presidentes.
Deputados.
Senadores.
Governadores.
Pode aprovar leis.
Pode modificar a Constituição quando houver quórum constitucional.
Pode fiscalizar ministros.
O Senado pode sabatinar indicações para o Supremo e, nos casos previstos constitucionalmente, processar autoridades.
Isso não é destruir a democracia.
ISSO É A DEMOCRACIA.
O objetivo não deveria ser substituir uma hegemonia por outra
Uma direita democrática precisa, porém, compreender a própria crítica que faz.
Se o problema identificado é um Estado capturado por um campo ideológico, a solução final não pode ser construir um Estado permanentemente capturado pelo outro.
A contraofensiva pode ser necessária para corrigir um desequilíbrio percebido.
Mas o destino institucional saudável é outro:
alternância real de poder.
Instituições suficientemente fortes para sobreviver tanto a governos de esquerda quanto de direita.
Um Supremo que não seja percebido como extensão de nenhum campo.
Um Congresso cuja composição corresponda à escolha popular.
Um Executivo capaz de governar dentro dos limites constitucionais sem ser dono do Estado.
Uma oposição que possa voltar ao poder caso convença novamente o eleitor.
A democracia não pressupõe um país eternamente ao centro.
Pressupõe a possibilidade de o pêndulo se mover.
E é por isso que a eleição não é sobre Flávio
A personalização excessiva da disputa esconde o fenômeno político.
Flávio Bolsonaro pode ser criticado.
Pode ser investigado.
Pode errar.
Pode governar bem ou mal caso seja eleito.
Nada disso altera a questão estrutural colocada pelas urnas.
A direita brasileira demonstrou em 2026 que sua força não depende exclusivamente de Jair Bolsonaro, mas usou sim da sua força política eleitoral.
Ela está no eleitorado.
Está no Congresso.
Está nos estados.
Está numa parcela enorme da sociedade que possui uma visão diferente de economia, segurança, costumes, liberdade individual, propriedade, Estado e instituições.
O primeiro turno não determinou quem governará o Brasil a partir de 2027.
O segundo turno ainda será realizado em 25 de outubro.
Mas já determinou algo importante sobre o país que surgirá dessa eleição:
Não é mais possível tratar a direita como uma anomalia temporária que desaparecerá se seus eleitores forem suficientemente repreendidos, censurados ou “educados”.
Ela é uma força política nacional legítima.
O erro de tentar derrotar milhões de eleitores pelo desprezo
Talvez esse seja também o maior erro retórico cometido na reação ao resultado.
Chamar milhões de eleitores de burros, ignorantes, fascistas, manipulados, inimigos dos pobres ou incapazes de compreender seus próprios interesses não é análise política.
É desprezo.
E existe algo profundamente contraditório em defender a democracia enquanto se considera moralmente ilegítimo que metade do país pense diferente.
Democracia não significa construir uma sociedade em que todos finalmente concordem.
Isso é uniformidade ideológica.
Democracia é administrar pacificamente o fato de que não vamos concordar.
Uma socialista pode acreditar sinceramente que concentração de riqueza é um problema estrutural.
Uma liberal pode acreditar sinceramente que pobreza e desigualdade são fenômenos diferentes e que prosperidade não é um jogo de soma zero.
Uma pode querer um Estado maior.
Outra pode querer reduzir burocracia, cargos, privilégios e estruturas improdutivas, ao mesmo tempo em que deseja professores mais bem remunerados, saúde eficiente e investimento em tecnologia.
Nenhuma dessas divergências exige tratar a adversária como moralmente defeituosa.
Forçar unidade de pensamento pelo constrangimento, pela humilhação social ou pela desqualificação de quem diverge é precisamente uma lógica antipluralista.
A eleição de 2026 é, antes de tudo, sobre alternância
A grande pergunta desta eleição não é se Flávio Bolsonaro possui mais virtudes pessoais que Lula.
É muito maior.
Depois de mais de duas décadas de disputa em que o PT exerceu influência extraordinária sobre a formação política e institucional do país, haverá uma alternância suficientemente profunda para mudar sua direção?
O Mensalão deixou a cicatriz da compra de apoio parlamentar.
O Petrolão revelou a dimensão sistêmica da relação entre política e poder econômico, o caso Master veio mostrar a perpetuação deste caminho.
A longa permanência petista produziu quinze indicações ao Supremo.
A partir de 2019, o STF assumiu protagonismo crescente na crise política, inclusive com a criação de um inquérito pela própria Corte cuja constitucionalidade ela própria posteriormente julgou.
As condenações de Lula foram anuladas.
Lula voltou à disputa.
Bolsonaro entrou em conflito crescente com o Judiciário e terminou condenado por tentativa de golpe condenação que, nesta leitura política, representa perseguição e não a solução neutra de um crime político.
Em 2026, depois de tudo isso, o eleitor respondeu.
Não apenas escolhendo um candidato presidencial.
Mas redesenhando o Congresso.
A diferença fundamental é que a mudança agora não precisa ser pedida às instituições. Ela foi determinada diretamente por milhões de votos.
E é exatamente esse o ponto que a democracia exige que todos, inclusive aqueles que detestam o resultado, sejam capazes de reconhecer.
O poder não pertence ao PT.
Não pertence ao bolsonarismo.
Não pertence ao STF.
Não pertence à imprensa.
Não pertence à esquerda.
E também não pertence à direita.
Pertence ao cidadão enquanto ele puder escolher, retirar, substituir e inverter a direção política do país.
Se o Estado estava caminhando há décadas numa direção e o eleitor decidiu fazê-lo caminhar para outra, não há paradoxo democrático nisso.
Há alternância.
Talvez a melhor síntese do que aconteceu em 2026 seja justamente esta:
a direita não precisou tomar o Estado. O eleitor entregou a ela, pelas urnas, poder suficiente para começar a mudá-lo.
E agora caberá às instituições provar que continuam pertencendo à República — e não a um lado dela.